terça-feira, 9 de março de 2010

Diversidade Cultural



por Antonio A. Dayrell de Lima

A sociedade brasileira reflete, por sua própria formação histórica, o pluralismo. Somos nacionalmente, hoje, uma síntese intercultural, não apenas um mosaico de culturas. Nossa singularidade consiste em aceitar - um pouco mais do que outros - a diversidade e transformá-la em algo mais universal. Este é o verdadeiro perfil brasileiro… Sabemos, portanto, por experiência própria, que o diálogo entre culturas supera - no final - o relativismo cultural crasso e enriquece valores universais.

Passado o período colonial, ficamos mais permeáveis à troca de idéias e ao influxo de conteúdos culturais que vêm do exterior, fora da esfera luso-africana. Também aplaudimos, por razões políticas óbvias, o livre fluxo de idéias: é um passaporte para a democracia e o reconhecemos como uma garantia do respeito aos direitos humanos.

O mundo, infelizmente, não apresenta historicamente um jogo simples, equilibrado ou mesmo limpo na matéria: as disproporções em termos da escala ou da resistência das culturas, assim como da difusão das mensagens e dos produtos culturais, são com efeito muito grandes… A globalização, neste aspecto, apresenta uma preocupante tendência à homogeinização cultural, quando não à hegemonia pura e simples em certos setores culturais.

Mas ‘diversificar é preciso’: a diversidade cultural é, em um certo sentido, o próprio reflexo da necessidade abrangente da múltipla diversidade de vidas na Natureza, a fim de que essa possa como um todo renovar-se e sobreviver. A cultura é a ‘natureza’ do homem. A diversidade cultural pode ser vista, por conseguinte, como a nossa ‘biodiversidade’ - aquela que deveríamos preservar, se não quisermos estiolar em um mundo globalizado que seria desprovido dos conteúdos, valores, símbolos e identidades que nos dizem intimamente respeito.

Hoje vivemos em um mundo que estimula a automia do econômico - o que implica privilegiar considerações comerciais em vez de outros aspectos societais (como a emergência internacional da AIDS), enquanto, por sinal, promessas não cumpridas em favor do livre-comércio se empilham, já que nunca se contempla a produção dos países em desenvolvimento…

O fato é que, obviamente, as produções de natureza cultural não são meros serviços remuneráveis, oferecidos à sociedade por pessoas talentosas ou de sucesso. A cultura não apenas agrada, esclarece ou diverte com produtos que podem ser internacionalmente comercializados, como também provém e faz parte da própria trama das sociedades - inclusive ajudando-as a sustentar-se através de atributos que pertencem ao âmago de cada um, isto tanto nas sociedades modernas quanto nas tradicionais. Os produtos culturais no sentido mais lato são a verdadeira teia que mantém as sociedades coerentes e vivas: deixar perecer, sutil ou grosseiramente, a produção cultural endógena de um povo, substitutindo-a por outra totalmente estranha, por melhor e mais cintilante que possa ser, é empobrecer este povo em sua própria identidade.

O comércio cultural não pode ser apenas o resultado de cálculos para obter vantagens comparativas que predominariam, seguindo um frio racionalismo econômico. Produtos e serviços culturais não podem ser tratados unicamente como mercadorias. Será que o quadro das disciplinas de comércio internacional é amplo o suficiente para comportar todas as complexidades do assunto?

Para usar uma analogia muito próxima à esfera nacional, envolvendo o mesmo conceito - o respeito pela identidade do outro - há, efetivamente, a necessidade de uma ação afirmativa internacional quanto à proteção da diversidade cultural. Poderíamos, em toda sinceridade, retirar a autonomia de qualquer governo na implementação de políticas públicas destinadas a proteger setores desavantajados do cenário cultural, quando confrontados somente pelas regras - ou o caos - do mercado global? A resposta é claramente não.

Acreditamos sinceramente que um enfoque meramente mercadológico, o do livre-comercio global, não seja o único parâmetro que deveríamos usar no tocante à questão da circulação de bens e serviços culturais.

O Brasil defendeu, como oportuna, na 32ª Conferência Geral da UNESCO - recém-realizada em Paris, com a presença do Ministro da Cultura e artista Gilberto Gil — a negociação, a curto prazo, de uma Convenção sobre a Proteção da Diversidade Cultural.

Esta idéia foi esmagadora e explicitamente defendida também por mais de 100 países, desenvolvidos e em desenvolvimento. Um pequeno grupo de países (6 a 8) - encabeçados pelos Estados Unidos - prefeririam que a matéria fosse exclusivamente tratada na OMC. Mas, após árduos entendimentos, foi dado à Organização, por consenso, um mandato de negociação.

É importante que a sociedade brasileira se intere dos debates internacionais que ora se iniciam formalmente - para que possa ser estruturada e formulada, de forma transparente, uma posição do Governo brasileiro afinada com todos os interesses nacionais em jogo.

*Antonio A. Dayrell de Lima é embaixador brasileiro e delegado permanente do Brasil junto à UNESCO


Texto disponível em: http://www.cultura.gov.br/site/2003/10/15/diversidade-cultural-por-antonio-a-dayrell-de-lima/ Acesso em 09/03/2010

domingo, 7 de março de 2010

Astronauta

Conta-se a história de três amigos. Que desde pequeno cresceram juntos no mesmo bairro freqüentaram a mesma escola e participaram das mesmas brincadeiras. O primeiro se chamava João, como era um cara descolado e tinha toda a moral com a galera, passou a ser chamado pelo apelido de “John” por ser mais despojado e combinar mais com seu estilo. O segundo se chamava Alexandre, diferentemente de John, não era tão legal e atraente como o amigo; e gostaria de ser chamado de “Alex”, mas não colou. E o terceiro se chamava Samuel, que por ser sempre atencioso e sensível a todo mundo, foi chamado carinhosamente de “Samuca”.

Os três garotos cresceram e entraram na adolescência, vivendo todos os desafios e as virtudes da idade. Novos amigos, novos valores, novos conceitos e experiências para além da barra da saia da mãe. Os três se tornaram filhos do seu tempo, respiravam os ares de sua época, dançavam conforme a música. E a música que tocava tinha uma harmonia bem humana. Quase todas as filosofias desse tempo foram elaboradas para convencer-lhes de que o bem do homem encontrava-se nesta terra.

Até que chegou a juventude, aumentaram as responsabilidades e os significados da vida se tornaram mais intensos.

E John, por sua vez sempre atraente e agradável, conquistava todos a sua volta. E era a descrição perfeita da ideia de que a vida era agora, e que devia curtir ao máximo o que essa vida poderia dar, pois só teria essa oportunidade. Então buscava ganhar o máximo de dinheiro possível, conquistar todas as mulheres disponíveis e juntar todos os amigos em sua volta. No entanto, nunca tinha paz, queria sempre mais e quando se encontrava sozinho, sentia angustia profunda.
Samuca por ter a alma bonita e dar sempre importância a sentimentos eternos obtinha o respeito e admiração de muitos. No final da adolescência, tinha tido uma experiência com o Eterno, tinha percebido que existia um desejo dentro do seu coração, que nada nesse mundo poderia satisfazer. Assim, ele percebeu que não tinha sido feito para esse mundo e que todas as alegrias e satisfações de seu tempo eram apenas eco e sombra das alegrias futuras.

Alexandre, por sua indiferença e dureza, tinha apenas a simpatia de seus nobres amigos que lhe entendiam e não o deixavam sozinho. Ele ficava sempre divido entre a personalidade imediatista de John e o caráter constante de Samuca. Talvez fosse o mais infeliz, pois, como John, tinha toda a sua esperança nessa vida, mas sabia também que não poderia ser saciado plenamente aqui. Samuca havia lhe apresentado outro mundo, mas com o tempo parou de pensar no eterno, se tornando o mais incompetente neste mundo.

A grande diferente entre os três é que apenas Samuca havia compreendido o verdadeiro significado da vida, apenas ele tinha conseguido perceber que sua vida no presente, era a anti-sala da Eternidade. Assim, ele vivia como se a gravidade, os problemas e as satisfações desse mundo não o pudessem segurar. Ele compreendeu o que essa canção abaixo diz e podia se considerar como um astronauta.


Os meus pés estão no chão
E a cabeça nas alturas
Nos meus tímpanos ainda soa Tua voz
Inesquecível como o verbo
Que não dá pra se apagar
Foi escrito aqui por dentro pra se eternizar
E não vai sair, e nem acabar
E a gravidade disso aqui não vai me segurar

Os meus pés estão no chão
E a cabeça lá no espaço
Sou satélite na órbita do Teu amor
E eu me sinto um astronauta flutuando na galáxia
Giro no Teu universo eu vivo acima do céu
E não vou sair, e nem me acabar
E a gravidade disso aqui não vai me segurar

Não importa se meus pés...
Se a cabeça é nas alturas
Não importa se o meu chão
Se eu vivo acima

Os meus pés estão na Terra
E a cabeça lá nas nuvens
No deserto o Teu cuidado paira sobre mim
Mesmo sem um telescópio, a capturar a tua luz
Despejá-la nos meus olhos
Plantá-la dentro de mim
E não vai sair, e nem acabar
E a gravidade disso aqui não vai me segurar

sábado, 6 de março de 2010

Dia Internacional da Mulher


Gostaria de deixar a minha pequena homenagem a todas as mulheres, pela sua força em vencer as dificuldades, pelo seu amor em vencer o ódio e pelo seu empenho em vencer as injustiças.

"Em vez de convidar as mulheres a aceitar a solidão parece-me preferível pedir-lhes que nos curem,
que aqueçam este mundo glacial da objetividade, que deem alma a essa sociedade mecanizada" Paul Tornier

Parabéns a todas as mulheres pelo seu dia

quarta-feira, 3 de março de 2010

Os cristãos e a cultura

A ‘cultura’ de uma sociedade é um conjunto de práticas, atitudes, valores e crenças que estão baseados no entendimento comum das ‘grandes questões’ – de onde surgiu a vida, qual é seu significado, quem somos nós e no que é importante gastarmos nosso tempo durante os anos que nos foram dados. Ninguém consegue viver sem pensar em algumas respostas para essas perguntas, e cada tipo de resposta ajuda a formar a cultura:

1. a forma como tratamos o mundo material,
2. a forma como relacionamos o indivíduo com o grupo e com a família,
3. a forma como grupos e classes se relacionam,
4. a forma como tratamos o sexo, o dinheiro e o poder,
5. a forma como tomamos decisões e decidimos prioridades, e a forma como tratamos a morte, o tempo, a arte, o governo, e o espaço físico.

Hoje em dia, muitos movimentos, grupos políticos, redes de ativistas sociais, fundações, elites, especialistas, escritores, artistas e líderes religiosos estão todos trabalhando intencionalmente em favor de mudanças culturais – e trabalhando em direções extremamente diferentes e muitas vezes, contraditórias. Cristãos, obviamente, adorariam ver sua sociedade refletir mais e mais a justiça do Pai, o amor sacrificial do Filho e o poder vivificante do Espírito. Como os cristãos deveriam ‘relacionar Cristo e a cultura’ para que isso aconteça?

Historicamente, cristãos têm adotado três abordagens clássicas que ainda estão em uso. Podemos chamá-las de abordagens conversionista, política e separatista.

1. Conversionista – De um lado, temos um grupo que acredita que o caminho a seguir para mudar a cultura é mudar o máximo possível de indivíduos através da conversão pessoal. Assim, supostamente, a cultura seria mudada automaticamente.
2. Política – Do outro lado, houve muitos crentes ao longo dos últimos séculos que pretendiam usar do poder político para estabelecer leis que eram diretamente baseadas na teologia cristã.
3. Separatista – A terceira abordagem rejeita qualquer idéia de cristãos tentando influenciar a cultura. Ela afirma que nós deveríamos refletir nossos valores cristãos dentro de nossas igrejas, mas não deveríamos tentar influenciar a sociedade em qualquer aspecto particular.

Em um texto tão breve, não há como esperar que se faça justiça a essas três abordagens. Cada uma delas está passível de tantas críticas das outras duas que nós podemos concluir que não há um caminho utópico para criar uma sociedade cristã. Você pode levantar o ponto de que nunca houve uma sociedade cristã (mesmo quando algumas se diziam ser) e nunca haverá.

Entretanto, os cristãos não devem se satisfazer com conversões individuais ou enclaves políticos quando olham e analisam o centro da narrativa da Bíblia:

1. Deus criou um mundo de paz e vida;
2. O mundo caiu em um estado de injustiça e sofrimento;
3. Deus decidiu redimir esse mundo através da obra de seu Filho e a criação de uma “nova humanidade”; até que:
4. Eventualmente, o mundo será renovado e restaurado para ser da forma como ele foi criado e como queremos que ele seja.

Resumindo, o propósito da redenção não é ajudar indivíduos a fugir desse mundo. É a vinda do reino de Deus para renovar o mundo. O propósito de Deus não é somente salvar indivíduos, mas criar um novo mundo baseado na justiça, na paz e no amor, ao invés de poder, conflitos e egoísmo. Se Deus é tão dedicado ao ponto de sofrer e morrer, cristãos certamente deveriam também buscar uma sociedade baseada do amor e na paz de Deus.

Como devemos fazer isso, então? Aqui na Redeemer, nós aprendemos alguma coisa de cada uma das abordagens citadas acima, e mesmo assim temos seguido um caminho diferente. Nem sonhamos em afirmar que temos a resposta definitiva, mas nossa forma de relacionar cristãos com a cultura é, assim cremos, extremamente promissora (apesar de seus resultados até aqui serem apenas ‘embrionários’). A seguir, um rascunho:

1. Cristãos devem viver plenamente na cidade. A cidade é um intenso caldeirão para formação da cultura. Tendências culturais tendem a surgir na cidade e se espalhar pelo resto da sociedade. Assim, pessoas que vivem em grandes centros urbanos (trabalhando em suas instituições, arrumando empregos artísticos, financeiros, acadêmicos ou na mídia e fornecendo serviços) tendem a ter mais impacto sobre como as coisas são feitas em uma cultura. Se uma maior porcentagem das pessoas que habitam em cidades fosse cristã, os valores de Cristo teriam muito mais influência na cultura.

2. Cristãos deveriam ser uma contracultura dinâmica na cidade. Não vai ser o suficiente para os cristãos apenar morar na cidade, individualmente. Eles devem viver como um tipo particular de comunidade.

A Bíblia nos conta que a história do mundo é a um “conto de duas cidades”. A “cidade do homem” é construída sobre o princípio da auto-exaltação individual (Gênesis 11.1-4: “Assim nosso nome será famoso”). O que Deus deseja é diferente. “Seu santo monte, belo e majestoso, é a alegria de toda a terra” (Salmo 48.2). Em outras palavras, a sociedade urbana que Deus quer é baseada no serviço ao invés do egoísmo e em trazer alegria ao mundo, não apenas aos seus indivíduos. Provavelmente Jesus tinha o Salmo 48.2 em mente quando disse aos seus discípulos que eles eram “uma cidade construída sobre um monte” cuja vida e as ações mostraram a glória de Deus ao mundo (Mateus 5.14-17). Assim somos nós! Nós cristãos somos chamados para ser uma cidade alternativa dentro de qualquer outra cidade terrena, uma cultura humana alternativa dentro que qualquer outra cultura humana, para mostrar como sexo, dinheiro e poder podem ser usados de formas não-destrutivas; para mostrar como classes e raças que não se dão bem longe de Cristo podem se dar bem nele; e para mostrar como é possível produzir arte que traz esperança ao invés de desespero e excitação.

3. Cristãos deveriam ser uma comunidade radicalmente comprometida com o bem da cidade como um todo. É insuficiente para os cristãos formar uma cultura que apenas ‘contradiz’ os valores da cidade. Nós devemos então nos voltar, como todos os recursos de nossa fé e nossa vida, para servir sacrificialmente pelo bem de toda a cidade, especialmente os mais pobres. Cristãos trabalham pela paz, segurança, justiça e prosperidade de seus próximos, amando-os em palavra e em ação, quer acreditem eles nas mesmas coisas que nós, quer não. Em Jeremias 29.7, os judeus foram chamados não só a viver na cidade, mas a amá-la e trabalhar por seu ‘shalom’ – seu crescimento econômico, social e espiritual. Cristãos são, sim, cidadãos da cidade celestial de Deus. Mas os cidadãos da cidade de Deus devem ser os melhores possíveis cidadãos de sua cidade terrena. Eles seguem os passos dAquele que deu sua vida por seus inimigos.

Por fim, cristãos não serão atraentes dentro de sua cultura através de jogos de poder e coerção, mas através de serviço sacrificial em prol das pessoas, sem se importar com o que elas crêem. Não vivemos aqui simplesmente para aumentar a prosperidade de nossa tribo ou grupo, mas para o bem de todas as pessoas da cidade.

4. Cristãos deveriam ser um povo que integra sua fé com seu trabalho. Existe um quarto e crucial componente para nosso plano de relacionar os cristãos com a cultura. Como dissemos antes, todo trabalho procede do que se acredita em relação às ‘grande questões’ sobre o significado da vida, o que os seres humanos são e quais são as coisas mais importantes da vida. Nós chamamos as respostas para essas questões de ‘cosmovisão’. Muitos campos profissionais hoje em dia estão dominados por cosmovisões muitos diferentes da cristã.

Entretanto, quando muitos cristãos adentram um campo vocacional, eles a) isolam sua fé de seu trabalho e simplesmente trabalham como todos ao seu redor ou b) simplesmente arremessam versículos bíblicos para as pessoas, esperando difundir sua fé. Nós simplesmente não sabemos como pensar sobre as implicações da visão cristã da realidade para formar tudo o que fazemos em nossas profissões. Não sabemos como persuadir pessoas ao mostrar a elas as raízes que o trabalho de qualquer pessoa tem em uma cosmovisão baseada na fé. Não sabemos como atrair as pessoas ao cristianismo ao mostramos os recursos obtidos em Cristo para resolver problemas culturais e satisfazer expectativas culturais.

A igreja cristã tem apenas começado a pensar nessa área. Quando se trata de cultura, muitos cristãos não conhecem nada além de uma fé privativa ou militante e beligerante. Aqui na Redeemer, nós queremos ser parte da renascença do engajamento cultural cristão em Nova Iorque.

Traduzido por Filipe Schulz
Texto extraído do Blog iPródigo:
http://iprodigo.com/traducoes/cristaos-e-a-cultura.html

segunda-feira, 1 de março de 2010

Uma experiência visual incrível

Guernica de Pablo Picasso - 1937 em 3D


Guernica: a arte e o terror

A Guernica de Picasso

Estéticamente quem melhor captou esse sentimento foi Pablo Picasso. Vivendo em Paris desde o início do século, já era uma celebridade quando o Governo da Frente Popular o procurou para que fizesse algumas telas para arrecadar fundos para a República. A violência e a indignação que causou o bombardeio fez com que ele se concentrasse por 5 meses numa grande tela, quase um mural (350,5 x 782,3). Sua primeira aparição deu-se numa Exposição Internacional sobre a Vida Moderna em Paris, no dia 4 de junho de 1937. O público virou-lhe as costas.

Não era algo belo de ser visto. Picasso, para retratar o clima sombrio que envolvia o desastre, utilizou-se da cor negra, do cinza e do branco. Como nunca a máxima de Giulio Argan segundo a qual a "arte não é efusão lírica, é problema" tenha sido tão explicitada, como na composição de Picasso. O painel encontra-se dominado no alto pela luz de um olho-lâmpada - símbolo da mortífera tecnologia - seguida de duas figuras de animais. No centro um cavalo apavorado, em disparada, representa as forças irracionais da destruição. A direita dele, impassível, um perfil picassiano de um touro imóvel. Talvez seja símbolo da Espanha em guerra civil, impotente perante a destruição que a envolvia. Logo a baixo do touro, encontramos uma mãe com o filho morto no colo. Ela clama aos céus por uma intervenção. Trata-se da moderna pietá de Picasso. Uma figura masculina, geometricamente esquartejada, domina as partes inferiores. A direita, uma mulher, com seios expostos e grávida, voltada para a luz, implora pela vida, enquanto outra, incinerada, ergue inutilmente os braços para o vazio, enquanto uma casa arde em chamas. Naquele caos a tecnologia aparece esmagando a vida.

Uma obra-prima do século XX

Foi uma das grandes premonições histórico-estéticas do século. Dois anos depois teria o início o martírio das populações de Varsóvia, de Londres, de Berlim, de Hamburgo, de Leningrado, de Dresden, de Hiroxima e de Nagasaki, que padeceriam, devido aos bombardeamentos em massa, dos mesmos tormentos das imagens dilaceradas do quadro de Picasso. Exatamente por não ter nenhum signo específico de agressão, nenhuma suástica ou distintivo franquista ou falangista, a composição transcendeu os acontecimentos da infausta Guerra Civil espanhola, tornando-se um manifesto estético dos horrores provocados por uma tecnologia a serviço da desumanização. Picasso pintou a obra-prima do século, onde se misturam as contradições da nossa época: progresso e violência, catástrofe e prosperidade.

Texto retirado do endereço: http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/guernica_eta.htm

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Salomão 2 - Vivemos um eterno retorno

Ao ingressar nessa pequena embarcação, além dos meus companheiros trago comigo todas as minhas desventuras e o peso da sociedade que me enrijece o tronco. Sou um homem que tenho muito dinheiro e tudo o que ele pode comprar eu tenho. Posso comprar inclusive o respeito e a admiração das pessoas. Sou daqueles que não se contenta com respostas prontas, aprofundo em questões que muitos sábios não conseguem responder. Além disso, me aplico diligentemente ao trabalho e na intervenção da natureza pelas minhas mãos, por acreditar que dessa forma dou mais significado a minha vida.

Diferentemente dos meus semelhantes, posso me considerar um indivíduo, porque minhas posições sociais e aplicações me condicionam a isso. Sou uma colcha de retalhos, formado por pedaços e tiras, dos tempos e dos valores, e tenho esses pedaços suturados pela fibra humana das minhas relações com as pessoas.

Acredito que a história da humanidade é como um livro lido várias vezes, as coisas vão e vem e se repetem com o tempo. Apenas as disposições do coração do leitor sofrem alguma alteração. Mas geração vai e geração vem, levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo. O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte; volve-se, e revolve-se, na sua carreira, e retorna aos seus destinos. Todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche; ao lugar para onde correm os rios, para lá tornam eles a correr.

Todos nos cansamos com nossas atividades de tal maneira que ninguém as pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem se enchem os ouvidos de ouvir. Sempre ansiamos pelas novidades, e queremos sempre saber os fatos das revistas da próxima semana. Entramos sistematicamente em nossas caixas de email esperando uma nova notícia, um novo sinal de vida, uma nova alegria.

E isso não é novo, a invenção de Gutenberg não ganhou notoriedade em vão. O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! Já foi nos séculos que foram antes de nós. Já não há lembrança das coisas que precederam; e das coisas posteriores também não haverá memória entre os que hão de vir depois delas.

Salomão 1 - Um convite para uma viagem pelos sentidos da vida


Te convido para nas próximas 16 semanas embarcar comigo numa viagem em busca dos sentidos da vida. A nossa embarcação será o livro de Eclesiastes, que permitirá que naveguemos pelos mares da sabedoria e das questões pertinentes ao sentido da vida. Nesse percurso visitaremos as ilhas da vaidade, o arquipélago do tempo, o estreito da corrupção, a baia das riquezas, o porto da justiça e a praia do conhecimento de si mesmo e do Eterno. Espero que você assim como eu, aproveite essa oportunidade para compreender melhor a razão da sua existência.

Eu sou Salomão, o comandante desse barco. Vivo no tempo presente, mas olho para trás e vejo com os olhos de hoje o eterno ontem. No final da minha vida, decidi fazer essa viagem para refletir sobre o que valeu ou não a pena. Achei que seria necessário também me isolar em algum lugar e contar com 3 amigos para me ajudar na tarefa de cuidar das coisas do navio e de encontrar razão para a existência. Para isso, nada mais formidável do que uma longa viagem pelos oceanos.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Dois golpes na razão


Ao longo do desenvolvimento da filosofia, desde a filosofia antiga (séc. VI a.C), passando pela filosofia medieval (séc.VIII ao séc.XIV d.C), Renascença (séc.XIV ao séc. XVI), Moderna (XVII a meados do séc. XVIII), Iluminista (séc. XIX) e chegando até a filosofia contemporânea uma ideia que persiste é a confiança crescente na razão. O otimismo filosófico com relação a razão chegou ao seu auge no século XIX, quando muitos afirmaram que os seres humanos haviam alcançado a maioridade da racionalidade e que o avanço da razão se desenvolvia plenamente para que o conhecimento completo da realidade e das ações humanas fosse atingido.

Contudo, Marx, no final do séc. XIX, e Freud, no início do séc. XX, colocaram em cheque o otimismo racionalista.

Marx descobriu que temos a ilusão de estarmos pensando e agindo com nossa própria mente e por nossa própria vontade, escolhendo e formando opiniões de maneira racional e livre. No entanto, Marx descobriu uma força invisível que age em nós que é um conjunto de ideias e valores que influenciam nossas escolhas, gostos, estilos de vida e estrutura de pensamento. A essa força que é social, deu-se o nome de ideologia.

Freud, por sua vez, demonstrou que os seres humanos também têm a ilusão de que tudo quanto pensam, fazem, sentem e desejam estaria sob o controle da nossa consciência. No entanto, Freud descobriu que existe outro poder invisível que age sobre nós, sem que a gente o saiba. A esse poder que domina e controla e domina de forma invisível e profundamente nossa vida consciente, ele deu o nome de inconsciente.

Assim, a crença pueril de que a razão nos levaria sempre além e ajudaria a resolver todos os nossos problemas é desfeita pela identificação de outras forças que atuam em nós sem que a gente o saiba ou possa controlá-las.

Por Eliéser Ribeiro

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O apagão da liderança


Um verdadeiro apagão da liderança corrói as empresas, escolas, famílias, comunidades. Por toda a parte percebemos a escassez de líderes, não só no mundo político. Ou esbarramos com a proliferação de indivíduos em posição de liderança, cujos valores são no mínimo questionáveis. Basta olhar ao redor ou ler os jornais para nos surpreendermos cada dia com as peripécias de líderes oportunistas.

O frustrado Encontro de Copenhague é o símbolo mais recente desse Apagão a nível mundial. Foi bem mais profunda a origem da severa turbulência que abalou a estrutura financeira do mundo no final de 2008, causando enorme onda de desemprego e afetando a vida de milhões de pessoas. O desenrolar da crise revelou que não se tratava apenas de um problema de escassez de crédito, mas também de escassez de líderes responsáveis. Assistimos a uma crise de valores na qual interesses pessoais de curto prazo puseram em risco a sustentabilidade do sistema e levaram ao caos várias empresas consideradas ícones do mundo moderno, fazendo ruir as bases de economias antes tidas como sólidas. A crise é também de liderança!

Mas não é apenas nas esferas política e empresarial que sentimos a falta de líderes inspiradores. Seus sintomas também se manifestam nas escolas: professores que raramente conseguem despertar a atenção de alunos desmotivados e indisciplinados; educadores intimidados por crianças que sequer chegaram a adolescência; uso crescente da violência verbal e até mesmo física para resolver desavenças; jovens que muitas vezes têm mais informação que mestres despreparados. Em muitas comunidades, as adversidades de infraestrutura básica são tão severas que o ofício de ensinar transforma-se quase que diariamente em uma operação de guerra.

Nosso modelo educacional está em geral formando profissionais para uma realidade já ultrapassada. Nossos educadores não estão conseguindo orientar estudantes para enfrentar os desafios do futuro. Preconceitos e vários tipos de discriminação estão fortemente presentes entre estudantes, pais, professores, diretores e funcionários das escolas brasileiras.

Muitas vezes, o que ocorre nas salas de aula é reflexo do que acontece em casa. Pais que não sabem mais negociar limites e reagem com incrível submissão à hábitos e desejos absurdos e irrealísticos dos filhos. Infelizmente, nos lares, deixaram de ser exceção as histórias de filhos agredindo e, em casos mais extremos, até assassinando os próprios pais. Ficamos chocados com os casos de adultos mantendo filhas menores em cativeiros e com a prática de abuso sexual na própria família. Também aumenta o numero de divórcios, muitas vezes causados pela falta de compartilhamento da liderança, que tem levado um dos membros a buscar alternativas de vida à tirania do outro.

Nas ruas e em eventos públicos e esportivos, assistimos estarrecidos aos atos de vandalismo e violência que assustam os transeuntes que saem de casa para trabalhar ou em busca de diversão e lazer. Muitas vezes a competência para influenciar pessoas e para aglutinar interesses são utilizados para prejudicar inocentes como é o caso de torcidas organizadas cujos integrantes se cadastram formalmente, não apenas para torcer pelos seus clubes, mas para provocar, agredir e travar verdadeiras batalhas campais, como se estivessem em uma guerra.

Nas empresas, ainda predominam mais chefes que líderes. Faltam sucessores preparados e assistimos ao triste espetáculo de empresas sólidas se desmancharem quando o fundador desaparece. Ficamos surpresos ao tomar conhecimento da perda de verdadeiras fortunas destinadas a formar gerentes mais eficientes, mas que não conseguem formar líderes eficazes. Muitos empreendimentos potencialmente vitoriosos sucumbem diante da triste constatação: “a ideia é boa, mas infelizmente não temos quem possa liderar esse projeto!”.

A maioria dos profissionais queixa-se de que não consegue o tão sonhado equilíbrio entre as diversas dimensões das suas vidas -- profissional, familiar, pessoal, espiritual, financeira, saúde, cidadania. O grau de infelicidade e frustração é muito maior do que imaginamos em vários segmentos, não apenas entre executivos, mas também entre médicos, advogados, engenheiros, arquitetos, comerciantes, empreendedores de modo geral.

As causas são recorrentes: dificuldades para liderar equipes, falta de comprometimento das pessoas, desavenças entre sócios, ausência de reconhecimento, problemas de comunicação, sentimento de injustiça, resultados insatisfatórios, conflito de valores, sobrecarga e mau gerenciamento das prioridades e do tempo. Precisamos repensar os conceitos e a pratica da liderança, se desejamos de fato construir famílias mais felizes, empresas mais saudáveis e comunidades mais solidárias.



Por César Souza (presidente da Empreenda, empresa de consultoria em estratégia, marketing e recursos humanos, além de autor e palestrante)

Uma boa definição para se buscar

"Não escolhi ser um homem comum.
É meu direito ser diferente, ser singular, incomum, desenvolver os talentos que Deus me deu.
Não desejo ser um cidadão pacato e modesto, dependendo sempre de alguém.
Quero correr o risco calculado, sonhar e construir, falhar e suceder.
Recuso trocar incentivo por doação.
Prefiro as intemperanças à vida garantida.
Não troco minha dignidade por ajuda de outros.
Não me acovardo, nem me curvo ante ameaças.
Minha herança é ficar ereto, altivo e sem medo, pensar e agir por conta própria e, aproveitando os benefícios de minha criatividade, encarar arrojadamente o mundo e dizer:
Isto é o que eu sou."
(Bertold Brecht)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Arruda e a Veja

No escândalo do governado do DF, José Roberto Arruda, tem muitas entidades e pessoas envolvidas. Entre elas encontra-se nossa “estimada” Revista Veja, que tem o pretenso objetivo de buscar a verdade.

A revista hoje não poupa Arruda, mas historicamente sabemos que é tendenciosa e pende para a desonestidade. A revista da Editora Abril não pode escapar de sua própria história: por mais agressiva que procure parecer agora, ao noticiar o escândalo de Brasília, não dá para esquecer que, em julho do ano passado, Veja havia oferecido ao então governador a entrevista principal da edição número 2.121 em suas outrora nobres páginas amarelas.

"Ele deu a volta por cima", dizia então o título da entrevista, que procurava mostrar o governador como um político capaz de superar seus próprios erros e seguir adiante. Na ocasião, chegou a ser noticiado que a decisão editorial, honrosa para José Roberto Arruda, havia passado pelo departamento comercial da revista.
O governo de Brasília havia firmado parceria com a Abril para distribuir milhares de exemplares de Veja nas escolas públicas do Distrito Federal, mas quem revelou a negociação não foi a grande imprensa. Foi uma blogueira de Brasília, Paola Lima, que publicou cópias da documentação que previa a compra de revistas, no total de R$ 442.462,50, durante um ano.

Esse foi o preço da entrevista de Arruda.

Esse blogueiro recomenda: não gaste dinheiro com essa Revista.

Texto adaptado do site:

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=577JDB007

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Quem poderia imaginar?


C.S. Lewis

A realidade, pela minha experiência, além de ser complicada, costuma ser estranha. Ela não é clara, não é óbvia, raramente é do jeito que você esperava. Por exemplo, quando você entendeu que a Terra e os outros planetas giram em torno do sol, você naturalmente achava que todos os planetas tivessem sido feitos para se emparelhar – todos com a mesma distância uns dos outros, ou pelo menos a distâncias que proporcionalmente aumentam; que fossem do mesmo tamanho, ou pelo menos que fossem ficando maiores ou menores à medida que se distanciassem do sol. Na verdade, você não encontra explicação ou razão (que nós podemos ver) para os tamanhos nem para as distâncias. Alguns planetas têm uma lua; um tem quatro; outro, duas; alguns nenhuma e outro tem um anel.

A realidade costuma, de fato, ser algo que você jamais teria imaginado. Essa é uma das razões por que eu acredito no cristianismo. Trata-se de uma religião que você nunca teria conseguido inventar. Se ele só nos oferecesse o tipo de universo que sempre desejamos, teria a forte impressão de que o estaríamos inventado. Porém, na verdade, não se trata do tipo de coisa que alguém pudesse ter inventado. Ele tem aquela singularidade imprevisível que as coisas reais têm.

Excertos de Cristianismo Puro e Simples.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Mais uma pá de terra na esperança


No último domingo (07/02/10), foi enterrado Alcides do Nascimento Lins, de 22 anos. Junto com ele foi sepultado o sonho de uma família e a esperança de um futuro melhor. Ele se tornou um exemplo de superação para todo o país, ganhando até espaço na mídia nacional por ter conseguido superar todas as barreiras sociais (origem pobre e ensino de escola pública) e entrar no mundo dos brancos (universidades federais). Ele era de origem negra e a sua mãe ganhava a vida juntando lixos e sucatas para vender e, além disso, foi aprovado em 1º lugar no vestibular de Biomedicina da UFPE.

A sua morte chama atenção, porque o caso dele é diferente, anômalo. Era um pássaro fora do ninho, era um negro no meio dos brancos. Mas apesar de ter ingressado no mundo dos brancos, ele ainda era negro, morava com os negros, tinha renda de negros e foi morto por seus parceiros que não tiveram a mesma força para superar todos os desafios vencidos por Alcides. Ele não podia fugir do destino de milhares iguais a ele que tiveram a vida abortada pela violência e pelas condições sociais que os oprimem.

Por que a sociedade brasileira não se comove com milhares de outros amigos de Alcides que morrem da mesma forma todos os dias em favelas e morros? Talvez Alcides seja considerado mais digno, porque conseguiu superar os desafios que os seus colegas de bairro não conseguiram. Talvez Alcides seja mais branco do que eles.

Vão acusar os assassinos de Alcides, como os mais facínoras de todos. Mas antes disso vale à pena refletir sobre a vida que eles tiveram antes de pegar numa arma. Porque “do rio que tudo arrasta se diz violento, porém ninguém diz violentas as margens que o comprimem". Bertolt Brecht


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O homem da cabeça de papelão


Autor João do Rio

No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.

O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!

Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.

Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.

Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.

Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.

— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.

— Mas não quero ser nada disso.

— Então quer ser vagabundo?

— Quero trabalhar.

— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.

— Eu não acho.

— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.

Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!

Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:

— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...

O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:

— A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.

— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?

Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.

No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.

Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.

— É doido, mas bom.

Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.

— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...

— É da tua má cabeça, meu filho.

— Qual?

— A tua cabeça não regula.

— Quem sabe?

Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.

— Só caso se o senhor tomar juízo.

— Mas que chama você juízo?

— Ser como os mais.

— Então você gosta de mim?

— E por isso é que só caso depois.

Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.

Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.

— Traz algum relógio?

— Trago a minha cabeça.

— Ah! Desarranjada?

— Dizem-no, pelo menos.

— Em todo o caso, há tempo?

— Desde que nasci.

— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...

Antenor atalhou:

— E o senhor fica com a minha cabeça?

— Se a deixar.

— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...

— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.

— Regula?

— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.

Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.

Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.

Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.

— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!

Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.

— Há tempos deixei aqui uma cabeça.

— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.

— Ah! fez Antenor.

— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...

— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.

— Mas a minha cabeça?

— Vou buscá-la.

Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.

— Consertou-a?

— Não.

— Então, desarranjo grande?

O homem recuou.

— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.

Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.

— Faça o obséquio de embrulhá-la.

— Não a coloca?

— Não.

— Vossa excelência faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.

Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.

— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.

— Qual! Vossa excelência terá a primeira cabeça.

Antenor ficou seco.

— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.

E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.

João do Rio foi o pseudônimo mais constante de João Paulo Emílio Coelho Barreto, escritor e jornalista carioca, que também usou como disfarce os nomes de Godofredo de Alencar, José Antônio José, Joe, Claude, etc., nada ou quase nada escrevendo e publicando sob o seu próprio nome. Foi redator de jornais importantes, como "O País" e "Gazeta de Notícias", fundando depois um diário que dirigiu até o dia de sua morte, "A Pátria". Contista romancista, autor teatral (condição em que exerceu a presidência da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, tradutor de Oscar Wilde, foi membro da Academia Brasileira de Letras, eleito na vaga de Guimarães Passos. Entre outros livros deixou "Dentro da Noite", "A Mulher e os Espelhos", "Crônicas e Frases de Godofredo de Alencar", "A Alma Encantadora das Ruas", "Vida Vertiginosa", "Os Dias Passam", "As religiões no Rio" e "Rosário da Ilusão", que contém como primeiro conto a admirável sátira "O homem da cabeça de papelão". Nascido no Rio de Janeiro a 05 de agosto de 1881, faleceu repentinamente na mesma cidade a 23 de junho de 1921.

O texto acima foi extraído do livro "Antologia de Humorismo e Sátira", organizada por R. Magalhães Júnior, Editora Civilização Brasileira — Rio de Janeiro, 1957, pág. 196.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Na vida, como no futebol, se você não busca o jogo, você não participa dele.


O caso de Keirrison, O K9

O mundo ilusório e ganancioso da bola fez mais uma vítima: o jovem Keirrison, ou nomeado pela torcida de K9. Há exatamente um ano atrás, esse jovem saía do Coritiba no Paraná e se transferia para o Palmeiras em São Paulo. Nos primeiros jogos pelo novo clube, sustentou uma média alta de gols. Era festejado e celebrado pela torcida.

No entanto, parece-me que ele foi seduzido pelo sucesso e a arrogância lhe subiu a cabeça. Ele começou a achar que o time fazia e acontecia por causa dele. Ele acreditou que era especial e que merecia um tratamento diferenciado no clube. Mas como alerta o texto de Provérbios 16:18, a soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda.

O começo arrasador foi minguando com o tempo, os gols foram rareando, e após a eliminação do time no torneio sul-americano, o K9 foi apontado pela torcida e até por colegas de equipe como o grande vilão. Ele era descrito como um “jogador sem raça, sem vontade, que tira o pé de dividida”.

Contudo, o cenário do fracasso não estava completo. Diante do mal estar no Palmeiras, não havia mais clima para Keirrison continuar no clube, e uma proposta do super Barcelona, de 14 milhões de euros, caiu do céu. K9 se foi. E por achar que ele ainda não estava maduro, o Barça o emprestou para o Benfica. Era vestir a camisa dos “Encarnados”, fazer “golos” e voltar com moral ao Camp Nou.

Mas a passagem de Keirrison pelo Benfica se transformou no mico do ano no futebol português. Encostado, ele se vê obrigado a encontrar um novo clube nas próximas horas, antes do fechamento da janela de transferências, se não quiser passar mais seis meses vendo futebol só do banco de reservas. Ou pior: das tribunas.

Até agora, Keirrison participou de apenas cinco jogos, só um como titular, totalizando 199 minutos em campo. Nenhum golzinho. Nos últimos dias, o técnico Jorge Jesus determinou que ele treinasse longe do grupo. Está tão triste que poderia “contaminar” os outros jogadores. “Ele está arrasado”, disse Marcos Malaquias, empresário de Keirrison, ao Yahoo! Esportes.

Ninguém mais no time agüenta o estilo “me passa a bola que eu chuto para o gol”. K9 parece não ter entendido que, tanto na vida, quanto no futebol, se você não busca o jogo, você não participa dele.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ser bom

C.S. Lewis

Nem mesmo o melhor de todos os cristãos age por suas próprias forças. Só o que ele faz é conservar ou proteger uma vida que ele jamais teria adquirido por seus próprios esforços. E isso tem conseqüências práticas. Enquanto a vida natural está no nosso corpo, ela fará o que puder para restaurá-lo. Se ele sofre um corte, saberá se curar até certo ponto, de uma forma que nenhum corpo morto saberia fazer. Semelhantemente, um cristão não é uma pessoa que jamais erra, e sim alguém que é capaz de se arrepender, reerguer-se e começar novamente depois de cada queda. A vida de Cristo está dentro dele, reparando-o o tempo todo, capacitando-o a repetir (até certo ponto) o tipo de morte voluntária que Cristo mesmo tomou sobre si.

Eis a razão por que o cristão se encontra em circunstâncias diferentes de outras pessoas que tentam ser boas. Elas acham que sendo boas podem agradar a Deus (se é que existe algum); ou, se elas acham que não existe Deus algum, esperam ao menos merecer a aprovação das pessoas boas. Porém, o cristão atribui toda boa obra que faz à vida de Cristo em seu interior. Ele não tem a ilusão de que Deus irá nos amar porque somos bons, mas que Deus nos fará bons porque nos ama; da mesma forma que o telhado de uma estufa não atrai os raios do sol porque é brilhante, mas se torna brilhante porque o sol brilha nele.

Excerto de Cristianismo Puro e Simples

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Lições sobre o terremoto no Haiti

Logo começou o ano e a humanidade foi surpreendida com uma catástrofe de dimensões incalculáveis, nomeadamente o terremoto no Haiti. A ONU declarou ser a maior tragédia dos seus 60 anos de história. Cenas de medo, destruição e desespero chegaram a nós por TV´s e pela Internet. E aquilo que parecia ser tão distante, nos tocou e mobilizou de alguma maneira, fazendo-nos refletir e expressar algumas opiniões.

Os mais céticos, se sensibilizaram por sentimentos de solidariedade humanitária, ou em alguns poucos a indiferença; e para muitos crédulos, especificamente os que se declaram cristãos protestantes, houve duas reações que nos cabe refletir: a primeira é o questionamento de como Deus permitiu isso a um país tão pobre, e a segunda é que o povo haitiano estava colhendo o terror de Deus por se envolverem em bruxaria e espíritos malignos.

Quanto à primeira questão imagino se Deus invertesse a demanda e perguntasse: onde eu estava que deixaram esse país se enterrar na miséria? Onde eu estava que exploraram esse país por anos como colônia? Onde eu estava quando deixaram líderes locais trucidarem uma população em nome da ganância e egoísmo? Onde eu estava que não levaram o tão desejado desenvolvimento para os países da América Central?

A tragédia do Haiti é mais social do que física. O Haiti não ruiu apenas com as fúrias das placas tectônicas, mas com a fraqueza das estruturas das casas e a falta de recurso para construí-las. No Japão os terremotos com maior intensidade trazem menos danos. Durante os 300 anos de história o país foi assolado pela escravidão e pela dependência. Por longos 300 anos líderes sanguinários assumiram o poder levando a população à barbárie.

A segunda questão talvez seja a mais mesquinha, pois parecem que vivem o cristianismo às avessas. Logo que acontece uma tragédia com outros que professam credos diferentes, já vem o juízo afirmando: viu estão obtendo o que merecem; ou então: Deus está fazendo justiça aos que não o seguem. A insensibilidade chegou a tal ponto que um pastor televisivo norte-americano exclamou que o terremoto foi resultado de um pacto com diabo que o país teria feito para adquirir sua independência da França.

Mas o trecho bíblico de Tiago 2:13 faz um grande alerta para os julgadores de plantão: será exercido juízo sem misericórdia para quem não foi misericordioso. A misericórdia triunfa sobre o juízo.

No contexto da tragédia, tais resoluções ajuizadas de cristãos parecem ser resultado de uma relação com um Deus rancoroso, cheio de ódio e vingança, que está pronto para mostrar a sua força quando suas pequenas criaturas precisam de cuidado e carinho.

Dessa discussão podemos tirar pelo menos duas lições, 1) que o terremoto social de três séculos no Haiti foi muito pior do que o "terremoto de Deus" no dia 05 de Janeiro e 2) que como cristãos protestantes melhor é estendermos a mão, ou ajoelharmos em oração em favor do povo haitiano, do que apontarmos o dedo de acusador.

sábado, 23 de janeiro de 2010

A CRUZ
por Luiz Felipe Pondé

ANOS ATRÁS, em Paris, o historiador Jacques Le Goff me falava da sua preocupação com o destino da cultura ocidental. Para ele, o Ocidente poderia perder sua identidade como resultado de sua própria produção cultural.

Outros intelectuais também partilhariam de suas inquietações. Entre eles, o antropólogo Lévi-Strauss, morto semana passada. Le Goff se inquietava porque parte das agonias da cultura ocidental teria sido fruto dos “achados” da história e da antropologia e seus frutos, as filosofias e políticas relativistas do século 20.

O relativismo existe desde os sofistas gregos e tem em Protágoras seu ícone máximo de então. Mas o que é “relativismo”? Em Protágoras é: “O homem é a medida de todas as coisas” (versão curta). Isto quer dizer que tudo é criação humana: a moral, a religião, enfim, as verdades de cada cultura. Sentados num bar, diríamos: “Cada um é cada um”.

A história contemporânea acentuou essa versão das coisas quando afirmou que as épocas têm suas concepções de mundo específicas e que não podemos dizer que uma época seja melhor do que a outra. A antropologia, por sua vez (e aqui entra Lévi-Strauss), afirmou que as culturas não podem ser comparadas umas com as outras sem cometermos o pecado de não percebermos que cada cultura seria um sistema fechado em si mesmo, onde um comportamento só poderia ser julgado pelos valores morais da própria cultura.

Por exemplo, matar bebês pode ser um horror moral acima do equador e uma obrigação sublime abaixo do equador. É comum remeter a Lévi-Strauss a descoberta da “dignidade intrínseca” de cada cultura, e que não se deve julgar uma cultura usando valores de outras.

Não há dúvida que essa atitude é essencial para a antropologia. O problema começaria quando pensamos no impacto do relativismo no próprio Ocidente que o inventou. Dito de outra forma: o relativismo se transformou numa militância política e moral apenas no Ocidente. Enquanto os ocidentais estariam sofrendo de uma “indigestão” devido à assimilação do relativismo, as “outras” culturas, estudadas pelos próprios ocidentais, permaneceriam no seu repouso não contaminado pelo relativismo. Trocando em miúdos: muçulmanos podem permanecer acreditando em seu paraíso com virgens, índios em seus espíritos da floresta, enfim, apenas os ocidentais deveriam “relativizar” seu Deus e suas “verdades”.

Sendo os cientistas sociais, os filósofos, os professores e os jornalistas maciçamente ocidentais, seriam as crianças deles que deveriam ser educadas duvidando da validade universal de seu mundo. Aí entra a inquietação de Le Goff: o Ocidente poderia se dissolver como identidade à medida que relativizaria a si mesmo, enquanto as “outras” culturas seriam poupadas da crítica relativista, porque indiferentes à angústia relativista ocidental e, também, porque contam com a simpatia do Ocidente nessa indiferença e na defesa de sua “dignidade intrínseca”.

A verdade é que os homens são sempre contraditórios e, ainda que eu não saiba se Lévi-Strauss de fato partilhava da mesma angustia de Le Goff, algumas pessoas afirmam que ele admirava seu avô Rabino e que julgava os racionalistas ateus uns chatos e preferiria aqueles que acreditam em Deus. Pode ser boato, mas isso faria dele um homem mais interessante do que alguns que engoliram o relativismo assim como quem come pão e vai ao circo.

Um exemplo da “indigestão” causada pelo relativismo no Ocidente é o recente caso dos crucifixos nas escolas italianas. Aparentemente uma mãe se queixou de que o filho se sentia “desrespeitado” porque, não sendo cristão, tinha que frequentar uma sala de aula com uma cruz na parede. A partir daí, teriam decidido pela proibição do crucifixo nas escolas.

Essa decisão é ridícula porque a cruz é um símbolo, seja eu cristão ou não, das raízes do próprio Ocidente, naquilo que ele mais preza: amor ao próximo, generosidade e justiça, enfim, um Deus que morre de amor. Nós contemporâneos somos ignorantes de um modo gritante acerca do cristianismo, confundindo-o com alguns de seus momentos mais infelizes e cruéis (toda cultura é infeliz e cruel de alguma forma). Essa proibição cospe na cara de 2.000 anos de história de uma grande parte da humanidade, e os ignorantes que a realizaram deveriam ser obrigados a pedir desculpa aos cristãos.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Visões ofuscadas de Deus

C.S. Lewis

Tratando-se de conhecer a Deus, a iniciativa veio da parte dele. Se Ele não se mostra, não há nada que você possa fazer para encontrá-lo. E, de fato, ele se revela muito mais a certas pessoas do que a outras, não porque tenha favoritos, mas porque é impossível que ele se mostre a um ser humana cuja mente e caráter estão em péssimas condições. É como a luz do sol que, embora não tenha preferências, não consegue refletir-se num espelho sujo de forma tão clara quanto num espelho limpo.

Você pode colocar isso de outra forma dizendo que, enquanto em outras ciências os instrumentos são coisas externas a você mesmo (como microscópios e telescópios), o instrumento por meio do qual você vê a Deus é seu próprio ser. E se esse “ser” não for mantido limpo e luminoso, sua visão de Deus ficará obscurecida – à semelhança da lua vista por um telescópio sujo. Eis porque pessoas horríveis têm religiões horríveis: eles sempre olharam para Deus com lentes sujas.

Excerto de Cristianismo Puro e Simples

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010


Proporcionalmente, rico deve pagar mais imposto para desigualdade cair

Sarah Fernandes

Para que o Brasil continue reduzindo a desigualdade de renda é preciso mudar o formato da arrecadação de impostos e garantir que, proporcionalmente, as pessoas de baixa renda paguem menos tributos do que as de renda elevada. A sugestão é do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que lançou o estudo “Pobreza, Desigualdade e Políticas Públicas” na última terça-feira (12/1), em São Paulo (SP).

O relatório mostra que o Brasil foi um dos poucos países que, entre 1981 e 2005, conseguiu reduzir a taxa de pobreza e a desigualdade de renda simultaneamente. Porém, o estudo destaca que para que a trajetória se mantenha é preciso reverter o formato da arrecadação de impostos.

As pessoas que ganhavam até dois salários mínimos em 2003 pagavam 48,9% do seu rendimento em impostos, enquanto aquelas que ganhavam mais de 30 salários gastavam 26,3% da sua renda em taxas, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), usada no estudo.

“O Brasil faz uma política distributiva, na qual os pobres pagam mais e o governo devolve esse dinheiro em ações sociais. Para continuar reduzindo a desigualdade é necessária uma política redistributiva em que a arrecadação seja maior no grupo dos mais ricos”, avaliou o presidente do Ipea, Marcio Pochmann.

Além de mudar o formato da arrecadação, o estudo alerta que reduzir a desigualdade depende da manutenção da taxa de crescimento econômico elevada e da criação de um órgão que monitore e avalie os programas sociais. “Não há um coordenador com metas globais para a área social como existe para a economia”, alertou Pochmann.

Sem pobreza extrema em 2016

Se forem mantidos os indicadores socioeconômicos de 2003 a 2008, o Brasil deve zerar o número de miseráveis em 2016 e reduzir o número de pessoas de baixa renda para índices similares aos de países desenvolvidos, aponta o estudo.

“O Brasil pode praticamente superar o problema da pobreza extrema, assim como alcançar uma taxa nacional de pobreza absoluta de 4%, o que significa sua erradicação”, segundo o relatório. Pobreza extrema é a condição em que uma família vive com até R$ 127,50 mensais e pobreza absoluta com até R$ 255, segundo o Ipea.

Para o Ipea, parte significativa dos avanços alcançados pelo país no enfrentamento da pobreza e da desigualdade está relacionada à Constituição de 1988 que garantiu acesso da população às políticas sociais. Além disso, o instituto destaca que a estabilidade monetária, a maior expansão econômica e o reforço de políticas sociais foram fundamentais no combate a desigualdade.

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